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Mercado Imobiliário

Fim da escala 6x1 pode encarecer imóveis novos em até 11%

·6 min de leitura

O debate sobre a jornada de trabalho e seus reflexos no mercado imobiliário

A discussão sobre o fim da escala 6x1 — modelo em que o trabalhador cumpre seis dias de trabalho para cada dia de folga — ganhou força no Congresso Nacional com a tramitação de duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs) que preveem a redução da jornada semanal sem corte de salário. O tema, que mobiliza trabalhadores e empregadores em diversos setores, tem um impacto especialmente sensível na construção civil e, consequentemente, no preço dos imóveis novos.

Para entender melhor esse impacto, a Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias (ABRAINC) encomendou um estudo detalhado à consultoria econômica Ecconit, especializada em construção civil. Os resultados foram publicados em fevereiro de 2026 e repercutiram no Valor Econômico, um dos principais jornais de negócios do país. Os números merecem atenção de quem está pensando em comprar um imóvel — especialmente na faixa econômica.

O que diz o estudo da ABRAINC

A pesquisa, conduzida pelos economistas Ana Maria Castelo e Robson Gonçalves — ambos ligados à FGV/IBRE —, analisou dois cenários de redução de jornada: de 44 horas semanais (padrão atual) para 40 horas, e de 44 para 36 horas semanais.

Os resultados são expressivos. No primeiro cenário, com jornada reduzida para 40 horas por semana, o custo total de um empreendimento imobiliário subiria 10,04%, o que se traduziria em um aumento de 5,5% no preço final das unidades vendidas. Já no segundo cenário, com jornada de 36 horas, o custo do empreendimento cresceria 20%, elevando o preço dos imóveis em até 11%.

O estudo tomou como base um projeto do segmento de baixa renda com Valor Geral de Venda (VGV) de R$ 100 milhões — um perfil bastante comum no mercado imobiliário brasileiro, incluindo empreendimentos do Minha Casa Minha Vida.

A rentabilidade dos empreendimentos em risco

Além do impacto nos preços, o estudo avaliou o efeito sobre a viabilidade financeira dos projetos. A Taxa Interna de Retorno (TIR) média dos empreendimentos analisados é de 25,7%. Com a redução da jornada para 40 horas, essa taxa cairia para 15,6%. No cenário de 36 horas, despencaria para apenas 6,7%.

Isso é relevante porque, segundo a própria pesquisa, a taxa mínima de atratividade de um empreendimento imobiliário costuma ficar acima de 20%, já que o risco da construção e a baixa liquidez do ativo precisam compensar o investimento frente a outras aplicações, como títulos públicos. Em ambos os cenários, a TIR ficaria abaixo desse patamar mínimo, o que poderia desestimular novos lançamentos.

A situação se agrava quando se considera a possível necessidade de ampliar o prazo das obras. Considerando um tempo médio de construção de 24 meses, os pesquisadores estimam que a redução para 40 horas exigiria mais 2 meses de obra, e a redução para 36 horas, mais 4 meses. Com esses prazos estendidos, a TIR recuaria para 13,8% e 5,3%, respectivamente — tornando os projetos ainda menos atrativos para incorporadoras e investidores.

Por que a construção civil é tão sensível a mudanças na jornada?

A resposta está na composição dos custos do setor. Enquanto na indústria geral a mão de obra representa cerca de 15% dos custos totais, na construção civil esse percentual chega a 40%. Isso significa que qualquer alteração nas condições de trabalho tem um impacto amplificado sobre o custo final das obras.

Há ainda o desafio da produtividade. De acordo com outra pesquisa da Ecconit, realizada em 2023, a produtividade da mão de obra na construção civil brasileira é 54% inferior à média da economia nacional e 84% menor do que a registrada em países desenvolvidos. Esse cenário torna ainda mais difícil absorver os custos de uma redução de jornada sem repassá-los ao preço final dos imóveis.

Para manter o mesmo volume de horas trabalhadas nos canteiros, as construtoras precisariam ampliar seus quadros de funcionários em 10% (no cenário de 40 horas) ou 22,2% (no cenário de 36 horas). Isso, por sua vez, geraria uma pressão salarial estimada entre 5% e 8%, segundo a Ecconit. Para neutralizar esses custos apenas com ganhos de produtividade, seria necessário que cada trabalhador produzisse entre 32,5% e 58,8% a mais — algo que os próprios pesquisadores consideram incompatível com o histórico recente do setor.

Quem seria mais afetado? Famílias de baixa renda

Um dos pontos mais impactantes do estudo diz respeito ao acesso à moradia para famílias de menor renda. Em financiamentos de imóveis de até R$ 200 mil — faixa econômica —, a redução da jornada para 40 horas tornaria a compra inviável para 1,6 milhão de famílias brasileiras. No cenário de 36 horas, esse número saltaria para 3,3 milhões de famílias.

O impacto diminui conforme o valor do imóvel aumenta. Em financiamentos de R$ 1 milhão, o número de famílias excluídas cairia para 175 mil (jornada de 40h) ou 350 mil (jornada de 36h). Ou seja, quanto mais popular o imóvel, maior o risco de exclusão do comprador.

Para quem está buscando um imóvel em Campo Grande ou em outras cidades do Mato Grosso do Sul, esse cenário merece atenção. A capital sul-mato-grossense tem um mercado imobiliário dinâmico, com forte demanda por imóveis nas faixas do Minha Casa Minha Vida, e qualquer encarecimento na produção afeta diretamente a acessibilidade das unidades disponíveis.

O que o setor propõe como solução

A ABRAINC e os pesquisadores não são contrários à melhoria das condições de trabalho, mas alertam para a necessidade de uma transição planejada. Segundo o estudo, sem uma evolução para a industrialização pesada dos canteiros e sem políticas de desoneração da folha de pagamento, a adoção isolada da redução de jornada poderia levar ao aumento dos preços e à queda na oferta de imóveis novos.

Luiz França, presidente da ABRAINC, resumiu bem o dilema: "Alterações estruturais dessa magnitude geram aumento de custos que impactam investimentos, reduzem o ritmo de novos projetos e afetam diretamente o acesso à moradia."

O que isso significa para quem quer comprar um imóvel agora?

Independentemente do desfecho do debate legislativo, o estudo reforça uma mensagem clara para quem está pensando em adquirir um imóvel: o momento presente pode ser mais vantajoso do que o futuro próximo. Se as PECs avançarem e a jornada for reduzida sem as contrapartidas necessárias, os preços dos imóveis novos tendem a subir de forma relevante.

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Fonte: ABRAINC – Estudo sobre impactos do fim da escala 6x1 nos preços dos imóveis novos (fevereiro de 2026), com repercussão no Valor Econômico.

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